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Escrito no início dos anos 1990 — no contexto de criação da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida —, o texto “O pão nosso”, de Betinho, é um manifesto ético de enorme densidade política. Quando relido sob a perspectiva contemporânea, marcada por avanços tecnológicos extraordinários, superprodução agrícola e, paradoxalmente, a permanência da fome e o alargamento do fosso da desigualdade, o ensaio revela uma lucidez dolorosa: a modernidade mudou a escala da técnica, mas patinou no mesmo terreno moral.

Origem e Formação
Herbert José de Souza nasceu em 3 de novembro de 1935, na cidade de Bocaiúva, no norte de Minas Gerais, e cresceu em Belo Horizonte. Vindo de uma família humilde, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1962. Desde a juventude, sua formação foi marcada pelo humanismo católico: integrou a Juventude Operária Católica (JOC) e, mais tarde, participou da fundação da Ação Popular (AP), militando em defesa dos trabalhadores e das reformas de base.
O Exílio e “O Irmão do Henfil”
Com o golpe militar de 1964 e o recrudescimento da repressão (especialmente após o AI-5 em 1968), Betinho foi perseguido e forçado a viver na clandestinidade até sair do país em 1971. Seu exílio durou quase uma década, passando por Chile, Canadá, México e França.
Durante os anos em que viveu longe do país, seu nome tornou-se um símbolo da luta pela anistia. Em 1979, foi imortalizado na canção “O Bêbado e a Equilibrista”, composta por Aldir Blanc e João Bosco e consagrada na voz de Elis Regina, no verso célebre que pedia o retorno da “esperança equilibrista que sabe que o show de todo artista não pode parar” e saudava a volta do “irmão do Henfil”.
A Família e a Trajetória dos Irmãos
A história de Betinho é inseparável da trajetória de seus irmãos. Ele era o mais velho de uma fraternidade profundamente talentosa e engajada:

