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Mesmo os mais distraídos já perceberam: vivemos um tempo em que as coisas não estão onde sempre estiveram e quando tudo acontece fora do horário previsto. Coincidentemente ou não, desde o advento das novas tecnologias, do smartphone aos serviços de streaming, essas parafernalhas digitais entraram na nossa vida sem pedir licença. É a revolução digital redefinindo a própria existência.
Os mais velhos entraram na dança sem acertar o passo, mas vão aproveitando a festa. Contudo, o foco da indústria continua nos jovens, no home office, EAD e fast foods, fazendo parecer que o mundo inteiro se mudou para dentro das telas, mesmo quando estamos fisicamente no Piscinão de Ramos ou na fila do show da Shakira.
Provavelmente a infância e a adolescência vão sofrer os maiores impactos, porém, é na faixa etária de 20 a 40 anos que os efeitos colaterais se instalaram atualmente. Para as gerações anteriores, havia um tempo dilatado de maturação e construção de carreira que se estendia vagarosamente. Hoje, o tempo devora a si mesmo. Enquanto os mais velhos adiam a aposentadoria para realizar projetos postergados, os mais jovens vivem sufocados por uma aceleração estonteante.
Surgiu, assim, uma enxurrada de possibilidades criativas e laborais e, com ela, a tirania do “ser produtivo”. Criamos um pavor visceral de não servir para nada. Transformamos até o lazer em meta de desempenho: contabilizamos as leituras do ano, otimizamos os hábitos matinais e monitoramos métricas de sono. O que restará da humanidade quando até o descanso precisar gerar lucro?
Psicólogos, filósofos e palpiteiros de plantão tentam decifrar os sintomas da época. Em resposta a esse mal-estar, o sujeito contemporâneo se ressente desse período de indefinição do futuro. Diante da instabilidade do amanhã, a geração atual adota o escapismo: foge das imposições da realidade e de suas duras responsabilidades, preferindo fantasiar o caos e buscar o entorpecimento de prazeres efêmeros.
Será que o futuro finalmente chegou e, por isso mesmo, não há mais nada por vir? Estaríamos presos no limiar de um muro de percepções que nos cega, incapazes de ver além, ou apenas não conseguimos compreender que o amanhã já está acontecendo, ao mesmo tempo, em todos os lugares?
Exagero diagnóstico ou um retrato fiel dos nossos dias? Como você enxerga esse cabo de guerra entre a busca pela produtividade e o medo do futuro? Deixe seu comentário.


