A refundação da Cultura Hip-Hop

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Da pista ao algoritmo: o que os jovens de ontem e de hoje procuram no Hip-Hop

Há uma afirmação recorrente entre os integrantes mais antigos do Hip-Hop: a juventude de hoje não possui o mesmo compromisso com o movimento. Segundo essa visão, os jovens conheceriam as músicas, imitariam as roupas, reproduziriam as gírias e perseguiriam a visibilidade proporcionada pelas redes sociais, mas não compreenderiam a cultura, a história, os princípios comunitários nem a dimensão política do Hip-Hop.

A crítica não é inteiramente injusta. Entretanto, ela costuma partir de uma comparação desequilibrada. Coloca-se a juventude do passado, já filtrada pela memória e representada por seus protagonistas mais conscientes, diante da juventude atual em toda a sua diversidade, incluindo suas contradições, superficialidades e excessos. Esquece-se que, em todas as épocas, houve artistas comprometidos e oportunistas, militantes e consumidores, criadores e imitadores.

A diferença fundamental entre os jovens de ontem e os de hoje não está simplesmente na existência ou na ausência de consciência. Está no modo como cada geração encontra, utiliza e atribui sentido à cultura.

Para os jovens que viveram a expansão dos bailes de Soul e Funk nas décadas de 1970 e 1980, a cultura negra representava uma forma de reconhecimento em uma sociedade que lhes oferecia poucas imagens positivas de si mesmos. Antes de ser um gênero musical organizado em categorias definidas, o Hip-Hop brasileiro começou a ser preparado nas pistas de dança, nos encontros de bairro, nas equipes de som, nos programas de rádio e na circulação de discos importados.

O jovem negro e periférico encontrava no cabelo black power, na dança, nas roupas, nas capas dos discos e na música Soul uma possibilidade de reconstrução simbólica. Em um país que exaltava a miscigenação enquanto mantinha profundas desigualdades raciais, os bailes black permitiam que milhares de pessoas se enxergassem como parte de uma comunidade cultural mais ampla.

Não se tratava apenas de diversão. A festa era também um espaço de afirmação.
Foi nesse ambiente que o Funk, o Soul, o breaking, o rap, o grafite e a discotecagem começaram a se encontrar. O jovem que dançava nas pistas não recebia um manual explicando o que era Hip-Hop. Ele aprendia observando, imitando, disputando, pesquisando e compartilhando. A escassez de informações tornava o conhecimento uma construção coletiva.

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André Brito

André Brito é escritor, professor, tradutor e pesquisador da cultura Hip-Hop. Atua no movimento cultural desde o fim dos anos 1980, com trajetória ligada à dança, ao rap, à produção cultural e à preservação da memória da cultura urbana no Distrito Federal e Entorno. É autor de Na Batida das Ruas, obra dedicada à história e às transformações do Hip-Hop, e mantém projetos voltados à literatura, cultura negra, educação e memória periférica.

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