ENTREVISTA
Melissa Andrade
Perfil
Melissa Andrade é professora voluntária em Nova Acrópole há mais de 20 anos e hoje Secretária Nacional voluntária de Relações Institucionais – Área Norte na mesma instituição. É avaliadora de programas de cooperação internacional para agências das Nações Unidas em diferentes países. Dedica-se a fazer a ponte entre o mundo interno e externo, entre as tradições antigas e o momento presente.
Leituras – Durante muito tempo, a filosofia ficou associada às universidades ou aos grandes pensadores da Antiguidade, como se fosse um conhecimento reservado aos estudiosos. No entanto, questões como ética, propósito, felicidade e convivência fazem parte da vida de qualquer pessoa desde sempre. Nesse contexto, qual é, afinal, a importância da filosofia no cotidiano?
Melissa Andrade – A Filosofia é a arte de buscar e encontrar respostas mais sábias e maduras para as questões da vida, respostas estas que tornem nossa vida mais plena e feliz e nos façam mais úteis para o mundo em que vivemos. E nesta busca por respostas, não podemos usar apenas os livros ou nos sustentar apenas em reflexões acadêmicas e intelectuais, necessitamos buscar na vida. O nosso cotidiano é uma fonte riquíssima de experiências, onde somos o tempo todo confrontados com desafios e pressões e por isso necessitamos olhar para dentro e apoiar-nos na grande tradição humana que nos fala de como viver uma vida mais humana, consciente e plena. Todo dia, ao fazermos uma viagem, ao fazermos compras, ao iniciarmos um projeto no trabalho, necessitamos de presença, propósito, clareza e harmonia nas nossas relações. A Filosofia Aplicada na vida cotidiana nos ensina sobre atenção, presença, reflexão, valores e uma atitude que nos leva a abraçar a vida de coração, ao invés de simplesmente contemplarmos a sua passagem. É apenas o comprometimento com a vida e o momento presente, uma vida entregue e generosa que nos abre portas para um entendimento mais profundo das leis da natureza. E isso está no nosso dia-a-dia, na riqueza de cada encontro, em disciplinarmos a nós mesmos, em compreendermos o ser humano que está ao nosso lado, em termos um propósito que nos ilumina a vida de significado e motivação.
Leituras – Em uma sociedade marcada pelo consumo rápido de conteúdos, parece haver pouco espaço para uma reflexão mais profunda. Ainda assim, nunca tivemos tanto acesso a livros, palestras, podcasts e outros meios de divulgação do pensamento filosófico. Como uma pessoa comum pode incorporar a filosofia ao seu dia a dia e transformá-la em uma prática, e não apenas em um conhecimento teórico?
Melissa Andrade – A filosofia pode e deve ser incorporada de maneira direta na nossa vida através de pequenas práticas. Se a filosofia nos fala da arte de dar respostas mais sábias para vida, o caminho para a sua prática está em desenvolvermos um ponto dentro de nós que seja mais lúcido – nosso centro. Se identificamos este ponto e o mantemos através de uma disciplina de vida, podemos extrair a direção sensata do que devemos fazer e aprendermos a processar a vida dentro e fora de nós. Mas, como fazer isso? Recomendaria um simples e pequeno menu para começar: 1) Acordar e sentir a vida antes de correr com pressa – voltar para quem se é – contemplar o sol e fazer este sol nascer dentro. Comprometer-se com um dia bem vivido iluminado com a qualidade interna (virtude) que quer expressar. 2) Ancorar a formação filosófica em algo sistemático, com ritmo, para que haja uma disciplina em se nutrir de grandes ideais humanos. A Nova Acrópole oferece os seus cursos para quem quiser começar. 3) Fechar o dia com o mesmo espírito de cerimônia, onde o dia é revisto como recomendava Pitágoras. Aqui a prática do diário é essencial para a nossa jornada filosófica. Há que se autoanalisar de maneira sistemática, sem peso, mas como uma autodisciplina para enxergar onde estamos e qual o nosso próximo passo. 4) A realização de um trabalho generoso que nos tire da prisão de nós mesmos e nos coloque à serviço da vida. Esta vida autocentrada que vivemos nos faz muito mal. A liberdade está em sairmos de nós mesmos, dos nossos desejos pessoais limitados e mesquinhos. 5) Prática da atenção e presença em tudo o que fizermos sem fugirmos da vida na pressa ou no celular– seja numa fila ou num mercado. Toda experiência cotidiana pode ser rica quando observamos a nós mesmos e os demais seres humanos e contemplamos a vida e os seus acontecimentos.
Leituras – Os antigos filósofos não buscavam apenas compreender o mundo; eles procuravam ensinar uma maneira melhor de viver. Em meio às pressões da vida contemporânea, ao excesso de compromissos e às constantes distrações, quais atitudes ou exercícios uma pessoa pode adotar para construir uma vida mais equilibrada e significativa?
Melissa Andrade – Platão ensinava que deveríamos ter uma vida equilibrada dedicando 6 horas ao sono, 6 horas ao trabalho, 6 horas ao operacional da vida (alimentação e outros) e 6 horas aos divinos ócios. Considero que hoje temos uma vida muito desequilibrada, onde ela se resume ao trabalho, à uma vida familiar muitas vezes limitada e conflitiva e às muitas horas de tela, distrações e um lazer vazio. As 6 horas que Platão mencionava de divinos ócios se relacionavam ao tempo dedicado à arte, à filosofia, à convivência fraterna, às cerimônias ou celebrações coletivas que davam sentido coletivo `a vida. Era o tempo dedicado ao que nutria o coração da vida. Quando a vida interna é nutrida, enchemos nossa vida de propósito. Corremos tanto para quê? Virou um hábito correr. Uma pessoa tensionada o tempo todo não é mais produtiva – é mais estressada. Temos que saber encontrar o nível correto de tensão na vida, onde fazemos o que necessitamos, mas com paz dentro, com vida que se realiza, com movimento que fazemos com sentido. E temos que aprender a fazer isso com inteligência. Temos que aprender a complicar menos, dar respostas para a vida econômica, familiar, para a saúde com mais inteligência – ou seja, economizando tempo com sensatez e presença. Quando o ser humano desenvolve a sua humanidade – a sua razão e o seu coração – ele pode sair de esquemas coletivos e construir sua própria individualidade e viver uma vida que para ele faça sentido – longe da busca por uma realização externa simplesmente, em paz consigo mesmo.
Leituras – Vivemos cercados por informações que chegam em ritmo acelerado, muitas vezes superficiais e desconectadas entre si. Somos constantemente estimulados a reagir, mas nem sempre a refletir. Diante desse cenário, de que forma a filosofia pode contribuir para que as pessoas desenvolvam um olhar mais crítico, profundo e consciente sobre a realidade?
Melissa Andrade – A filosofia nos ajuda a fazer síntese para além dos opostos. O mundo é cheio de dualidades e contradições. Assim são também as ideologias que nos fazem ficar radical, seja de um lado ou de outro. E hoje, com as bolhas das redes sociais, isso fica ainda mais crítico. Saber fazer síntese significa aprender a olhar os dois lados de uma mesma situação, não se sentir o dono da verdade, saber que as pessoas têm naturezas diferentes e por isso pensam diferente. E mais do que isso, olhar para cada situação de maneira racional, sem paixões. São as nossas paixões que turvam o nosso olhar. A filosofia não poderia ser passional, deveria ser um exercício de ´amor´ à sabedoria, não de paixão por ela. Sophia é exigente, ela pede calma, atenção, presença e entrega. Se geramos dentro de nós esta postura mais serena e centrada, temos condições de compreender melhor o mundo que nos cerca e nos relacionarmos melhor com ele. É sempre uma questão de postura interna diante da vida que pode e deve ser praticada no dia-a-dia, e não apenas em momentos específicos. Todo os momentos são propícios para voltar-se ao coração, centrar-se e buscar uma visão mais profunda.
Leituras – Temas relacionados à saúde mental ganharam grande visibilidade nos últimos anos, e muitas pessoas relatam encontrar conforto e sentido em leituras filosóficas. Ao mesmo tempo, sabemos que transtornos como depressão e ansiedade exigem acompanhamento especializado. Nesse contexto, qual é o papel da filosofia? Ela pode funcionar como uma forma de terapia ou sua contribuição está em outra dimensão da experiência humana?
Melissa Andrade – A filosofia pode atuar em diversos níveis – ela pode nos ajudar a compreender melhor o que vivemos e sair das crises psicológicas e pode também nos potencializar para termos uma relação mais plena com a vida. O tratamento terapêutico e às vezes psiquiátrico tem um papel importante em muitos casos e deve ser considerado. Em alguns casos mais críticos diria que é até mesmo essencial. No entanto, este abuso de remédios psiquiátricos hoje já mostra um desequilíbrio coletivo, uma falta de saúde psicológica que é reflexo de uma sociedade adoecida sem sentido de vida, mostra a falta de conexões humanas e de resiliência para lidar com os desafios da vida. E neste mal-estar coletivo, a filosofia pode e deve dar uma importante contribuição para resgatar a ideia de que cada um tem uma natureza essencial e um papel na natureza. Quando o ser humano desenvolve uma relação mais profunda consigo mesmo, compreende melhor o sentido da vida, relaciona-se bem com as pessoas e se coloca à serviço da comunidade, ele ´enche a vida de vida´ e gera um alto grau de realização e um elevado grau de bem-estar e saúde mental. E nisso, a filosofia pode contribuir e muito.
Leituras – A leitura nos coloca em contato com grandes ideias e amplia nossa compreensão do mundo. Mas a senhora acredita que o exercício da escrita (e até mesmo o hábito de verbalizar nossas emoções e reflexões) também é fundamental para organizar o pensamento, favorecer o autoconhecimento e promover o desenvolvimento humano?
Melissa Andrade – Eu considero o exercício da escrita essencial para ajudar a organizar a nossa vida interior – nossas emoções e pensamentos. Logos é uma palavra em grego que significa luz/razão e palavra. O Logos que em nós habita necessita ser expresso por meio das nossas palavras. Quando falamos e escrevemos, organizamos a mente, tornamos o implícito, explícito. Saímos do caos e geramos cosmos – a ordem. Um dos maiores motivos de angústia humana vem da confusão mental, de sermos arrastados por uma mente sem rumo e emoções oscilantes e agitadas. Quando achamos dentro de nós um eixo e organizamos nossos pensamentos, a vida fica mais serena e lúcida, caminhamos com mais firmeza. Em culturas antigas, os mitos eram fonte de cura, onde as pessoas ouviam o drama do herói e viam como ele fazia para vencer o dragão e sair mais forte. Deveríamos tornar nossa vida mítica, dando sentido às nossas experiências como faz um herói. Por isso, deveríamos ter uma estrela clara (um ideal de evolução atemporal) e ver os nossos desafios como provas. Por exemplo – meu ideal é a bondade, eu hoje tive um dia difícil e fui arrastada pelas circunstâncias. No meu diário à noite, relembro da estrela, mapeio as provas e escrevo sobre as dificuldades enfrentadas e o que foi possível viver. Isso organiza o que eu vivi e dá sentido para isso. Outro exemplo – passei por uma situação difícil – a morte de uma pessoa querida, um divórcio – olho para mim como Ulisses que está tentando voltar para casa enfrentando várias provas pelo caminho. É disso que trata a literatura, dar sentido à vida humana. Esta é a natureza humana – a arte de dar sentido ao mundo. Diria Plotino que cabe a Inteligência/O Logos contemplar o Ser e dar sentido para ele. Somos o Ser em movimento na vida, um reflexo das leis da natureza.
Leituras – As crianças são naturalmente curiosas e costumam fazer perguntas profundas sobre a vida, o tempo, a justiça e a existência. No entanto, a filosofia normalmente só aparece no ensino formal muitos anos depois. A senhora acredita que a educação filosófica deveria começar ainda na infância? De que maneira esse contato precoce poderia contribuir para a formação humana?
Melissa Andrade – Em Nova Acrópole, damos aula de filosofia para crianças e jovens, e elas respondem muito bem. Uma excelente forma de ensinar filosofia não é simplesmente em sala de aula, mas ajudando jovens e crianças a observarem a natureza e aprenderem a lidar consigo mesmas. Devemos ensinar as crianças a contemplarem os pássaros e falar para elas sobre o valor da liberdade, a olhar para a terra e falar do valor da estabilidade, a olhar para a água e falar da qualidade da fluidez, a olhar para os amigos e ver como cada um é diferente e em sendo diferente, é especial. Isso é fazer filosofia na prática. É bom ter aula específica de filosofia na escola, mas também é essencial fazer com que cada professor possa fazer filosofia ensinando matemática, português e ciências. Ao aprender qualquer coisa, podemos ter um olhar filosófico de questionar, tentar entender mais o que está por trás, a beleza da língua e a lógica dela, a beleza das leis da natureza, a exatidão dos números. Por trás de tudo há ideias e princípios, ser filósofo significa busca compreender os princípios por trás de tudo que experimentamos com a mente e os sentidos.
Leituras – Em diferentes momentos da história, escolas filosóficas desempenharam um papel importante na formação ética e cultural das sociedades. Atualmente, instituições voltadas ao estudo da filosofia, da cultura e do desenvolvimento humano continuam reunindo pessoas interessadas em autoconhecimento e cidadania. Na sua visão, qual é a relevância dessas organizações para a sociedade contemporânea? Elas poderiam funcionar como verdadeiros motores de desenvolvimento humano?
Melissa Andrade – A filosofia trabalha com a formação do indivíduo e a sua construção como ser à serviço da sociedade. As escolas de filosofia historicamente tiveram um papel essencial na inspiração da cultura humana – desde a Antiga China, Índia, Grécia até a sociedade moderna. No Renascimento, houve o movimento dos Quatrocento, que eram sociedades filosóficas e literárias que ajudaram a resgatar a filosofia antiga. Houve inclusive uma Escola Platônica em Florença. Estas ideias resgatadas ajudaram a criar uma cultura mais humana e universal, as fronteiras das mentes humanas se ampliaram, houve as grandes navegações, a imprensa, a ampliação do pensamento humano. Estas escolas são essenciais para ajudar a cultivar ideias que possam inspirar a educação, as políticas públicas e a convivência humana. Considero este trabalho essencial. É muito sinérgico poder compartilhar estas ideias em grupo e este é o papel de Nova Acrópole – resgatar esta milenar tradição humana que fala de ideias essenciais, sentido e realização humana. É a nossa intenção contribuir com este despertar dos melhores valores humanos e estamos fazendo isso já há quase 70 anos e hoje em mais de 50 países.
Leituras – Muitas pessoas demonstram interesse pela filosofia, mas não sabem por onde começar. Diante da enorme quantidade de autores, correntes de pensamento e conteúdos disponíveis, qual seria o primeiro passo para quem deseja iniciar uma jornada filosófica que realmente transforme sua maneira de viver?

Melissa Andrade – Além de iniciar o curso de Filosofia em Nova Acrópole, um bom tema para iniciar é a filosofia estoica, porque é simples, direta e acessível. Os estoicos falavam que deveríamos viver uma vida racional de acordo com as leis da natureza. Um exemplo disso é a frase de Marco Aurelio que diz ´Nada acontece ao homem que não seja próprio do homem´ – isso é sensato e óbvio. Nada vai acontecer a nós que não seja próprio da nossa natureza, ou seja, se acontece, faz parte da lógica da vida – a morte, a doença, a mudança, tudo ocorre de acordo com as leis da vida. Só esta simples constatação nos faz olhar com mais sobriedade e naturalidade para tudo o que a vida nos traz. Isso nos ajuda a tirar o drama da vida. Este ensinamento simples e profundo, se praticado, já muda completamente a nossa forma de viver. O fundador de Nova Acrópole, o Prof. Jorge Angel Livraga dizia que ´o importante não é saber muitas coisas, mas viver algumas´. Se eu sei Platão, Aristóteles, Plotino, Kant e não vivo nada, isso não tem valor algum, mas se eu conheço ideias simples e profundas e as vivo, é o que realmente importa.
Leituras – Ao longo desta conversa, falamos sobre autoconhecimento, ética, educação, saúde emocional e sentido da vida (temas que revelam a amplitude da filosofia). Para encerrar nossa entrevista, gostaria de lhe fazer uma pergunta talvez simples apenas na aparência: se precisasse definir a filosofia em poucas palavras para alguém que nunca teve contato com ela, como a descreveria?
Melissa Andrade – A Filosofia é a arte de dar sentido à vida e viver em harmonia com este sentido. Mircea Eliade definia o sagrado também como a arte de dar sentido `as coisas. Considero que a filosofia nos ajude a ´reencantar o mundo´, dando a ele um novo sentido sagrado. Esta ideia de mundo desencantado foi trazida por Max Weber. Ele dizia que a sociedade racional matou o místico e o sagrado, dando um sentido técnico e científico para todas as coisas que devem ser medidas e que foi isso que ocasionou esta grave crise de sentido coletivo. A revolução científica foi sensacional em termos de tornar a vida mais organizada e próspera e organizar o nosso pensamento, gerando método e ampliando muito as nossas possibilidades de viver em sociedade. Mas, não somos apenas máquinas que calculam, somos seres que imaginam, que tem símbolos dentro de si, que sonham, que amam. É preciso, numa nova etapa, sermos mais inteiros: que tal sermos objetivos e pragmáticos e ao mesmo tempo místicos e profundos? Estou completamente convencida que é isso que nos cabe ser – os dois – inteiros e completos. E a filosofia pode ser um caminho para nos ajudar neste processo.







