O maior agente da nossa própria opressão é o nosso anseio por reconhecimento.

“Questionando a Vida Quantificada”, publicado na edição de Verão de 2020, o autor Joseph E. Davis opera uma espécie de necropsia sutil das ilusões de autonomia que sustentam o ambiente de trabalho contemporâneo. Nascido em 1957, Davis é professor de pesquisa em sociologia na Universidade da Virgínia e moderador do colóquio “Picturing the Human”. Sua credencial como experiente investigador do sofrimento psíquico moderno projeta-se sobre o texto para desvelar um paradoxo central que gera profundo espanto no leitor: a engenharia corporativa atual transmutou a vigilância punitiva em um convite sedutor ao autodesenvolvimento, fazendo com que o maior agente da nossa própria opressão seja o nosso anseio por reconhecimento.

O mal-estar que se instala ao longo da leitura não decorre da denúncia de um totalitarismo clássico, mas sim da constatação de que fomos capturados por uma arquitetura invisível de monitoramento que nós mesmos alimentamos de bom grado. Davis retira o véu tecnológico e nos coloca diante de um espelho incômodo. Se a gestão moderna enxerga a alma humana apenas como um amontoado de variáveis a serem otimizadas, por que aceitamos, com tanta facilidade, trocar nossa complexidade interior pela segurança de uma métrica?

A arqueologia do olhar unidirecional

Ao longo do ensaio intitulado “Questionando a Vida Quantificada”, o autor constrói uma engenhosa metáfora histórica para explicar o presente. Ele nos transporta a 1902, quando Emil Bloch patenteou o “espelho transparente” — aquela superfície que reflete de um lado e revela-se como janela de outro. Não se trata apenas de uma curiosidade histórica sobre delegacias de polícia ou laboratórios de psicologia da década de 1950. É, fundamentalmente, a gênese de uma assimetria estrutural de poder. Davis nos lembra de que o design desse objeto carrega uma ambiguidade inerente entre o opaco e o transparente, organizando os papéis sociais entre quem detém o privilégio da objetividade e quem está fadado à vulnerabilidade da subjetividade exposta. Essa imagem ganha contornos contemporâneos assustadores quando o autor demonstra que as velhas barreiras físicas foram substituídas por fluxos eletrônicos ininterruptos.

“As posições distintas dividem os pontos de vista em observador objetivo e observado subjetivo e criam uma assimetria de poder correspondente. […] Essas funções e dinâmicas foram assumidas por um número crescente de métodos eletrônicos, desde câmeras de vídeo e rastreamento por GPS até sistemas de ponto de venda e aplicativos de produtividade.”

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Larry Mello

Analista de Sistemas, Jornalista, Editor de Livros e Revistas. Essas são algumas das minha habilidades. Porém, navegar no universo da escrita é sem dúvida a minha atividade predileta.

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