O futuro, tal como nos venderam, acabou.

Na provocativa entrevista intitulada “O progresso não continuará indefinidamente”, concedida ao jornalista Xifan Yang para a revista norueguesa Vagant, o filósofo japonês Kohei Saito opera uma espécie de necropsia da nossa maior ilusão ocidental: a fé cega no crescimento contínuo. Nascido em 1987 e hoje professor na Universidade de Tóquio, Saito transformou-se no herói improvável do pensamento ecológico contemporâneo ao sugerir algo que a nossa mente hiperativa tenta evitar a todo custo: o futuro, tal como nos venderam, acabou.

A modernidade ocidental nos acostumou a uma espécie de otimismo compulsório, uma engrenagem psicológica que transforma qualquer crise em uma oportunidade de mercado ou em um desafio de engenharia. Quando os termômetros rompem recordes históricos e os relatórios científicos assumem tons apocalípticos, a nossa reação imediata é buscar a redenção nas prateleiras: carros elétricos com painéis minimalistas, créditos de carbono negociados em bolsas de valores e promessas de uma Inteligência Artificial que, por milagre algorítmico, estabilizará a atmosfera. Há um transe coletivo na insistência de que o amanhã será inevitavelmente mais veloz, mais limpo e mais próspero, desde que não alteremos o ritmo do nosso consumo. É o mito do progresso linear operando como um anestésico existencial.

É precisamente contra esse entorpecimento global que o filósofo japonês Kohei Saito se levanta, não com o desespero caótico dos profetas do apocalipse, mas com a frieza cirúrgica de um legista da civilização. Professor associado na Universidade de Tóquio e convertido em uma espécie de fenômeno editorial da nova esquerda ecologista, Saito usa o lançamento de seu novo livro em alemão, No Fim do Progresso: Sobrevivendo nas Ruínas do Capitalismo, para desferir um golpe contundente nas nossas ilusões mais caras. Na densa entrevista concedida ao jornalista Xifan Yang, publicada nas páginas da revista Vagant, o pensador abdica das fantasias do “crescimento verde” para nos confrontar com um paradoxo incômodo: a única forma de preservar a nossa humanidade talvez seja aceitar, de uma vez por todas, que o futuro como o desenhamos fracassou.

Saito fala a partir de uma posição singular. Ele não é um eremita que rejeita a tecnologia, mas um estudioso que compreende que as ferramentas do presente estão sendo sequestradas para garantir a sobrevivência de poucos em detrimento de muitos. Ao longo do diálogo na Vagant, ele constrói uma narrativa magnética que subverte a própria gramática da esperança. Não se trata de esperar o colapso para começar a agir; Saito argumenta que o colapso já é o nosso presente invisível, camuflado por discursos de adaptação que, no fundo, apenas preparam o terreno para uma era de exclusão bárbara.

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Larry Mello

Analista de Sistemas, Jornalista, Editor de Livros e Revistas. Essas são algumas das minha habilidades. Porém, navegar no universo da escrita é sem dúvida a minha atividade predileta.

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