Fora dos limites: Carta ao desconhecido 

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Escrever é apelar à gama de emoções negadas da paternidade. Mães e avós não são irresponsáveis: enlaçaram suas incontáveis ausências. O que é a verdade? Um desejo de não saber: origens da língua submetidas a posições fixas e salivantes, numa inadequação humana insaciável. Sou uma descendente de tal colheita, depreciada por um capital que se compromete a jamais colocar a questão: quais são as propriedades dos nomes fora dos limites? Os mesmos que não podem ser cerceados por identificações, mas caracterizam-se pela capacidade de se aniquilarem? A primeira vez que descubro ser descendente dos nomes fora dos limites é quando me encontro algemada a uma maca num hospital em Vancouver. 

A camisa de força, que me enfaixa contra o peito, representa o papel que estou prestes a encarnar: a colapsada. Nunca havia enfrentado um choque tão grande. Só mais tarde irei entender que desconhecer é ter a sensação de já ter estado lá. O chiado das luzes halógenas no corredor é aconchego, casa temporária das moscas que beijam a luz na cegueira do limbo. Dentro e fora da consciência, permaneço fora do ar por dias, ou assim me parece. Como compreender que um dia é um dia? Mais de duas décadas se passaram desde o horror dessa experiência, e ainda assim ela me convoca. 

Quando começo a escrever cartas endereçadas a remetentes que jamais me enviarão respostas, indago se o ato de letrar é versificar a verdade: a tal realidade dos fatos. Antigo conflito entre teoria e seus destinos de ficção, ainda mais evidente quando escrevia minha tese de doutorado, época também do tal colapso mental. Meu projeto de pesquisa era um estudo sobre os cinco sentidos, o corpo e sua tradução na obra solar de P. K. Page, poeta canadense que viveu no Brasil nos anos cinquenta. 

Essa poeta tem um belo livro de glosas, escrito em inglês, intitulado ‘Holograma’. Quando lembro das alucinações, porta-bandeiras ao colapso, vejo muitas cores holográficas. Concretamente, não alucinei com sua poesia, apenas com as cores que ela evocava em mim. Outros que emergiram do inconsciente foram o filósofo Jacques Derrida e o psicanalista Jacques Lacan. Eles conversavam com minhas visões enquanto eu lia ‘Febre de Arquivo’, sem suspeitar que desencadeariam ou levariam a algo final – uma finalidade para mim. O fantasma de Derrida, seu olho espectral me observando intensamente no amanhecer após a queda, retorna como meu testemunho do nada, meu silêncio antecipado, quase adivinhador; a lógica do arquivo simplesmente encerrada.

Os loucos não têm chance de falar. Lembro desses eventos como se fossem marcas de um tipo de morte, a minha morte, meu desejo de desaparecimento, um saldo negativo das gerações anteriores e um acordo de repetição que eu seria impossibilitada de cumprir. Eu havia perdido a sanidade. O que havia encontrado em seu lugar? O que deveria ser repensado a partir disso? O que acontece quando a linguagem é insuficiente? Questionada por médicos, enfermeiros e um batalhão de defensores da saúde mental que pareciam sugerir que eu era a única culpada, senti-me um caso perdido. Eles me deram remédios que tomei, o que me levou a um sono profundo. Desconfiava das vozes desses juízes, que soavam persecutórias. Estava um pouco paranoica, para dizer o mínimo. 

Enquanto permaneci isolada e trancada na ala psiquiátrica por 15 dias, sabia que havia algo errado comigo; a cola que mantinha a realidade coesa e unida havia sido reduzida a uma peça de teatro, um cenário de filmagem — linguagem, papéis e falas desligados de significado. Estou fora do enquadramento da cena, pensei. Isso me parece o filme da minha vida. 

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Désirée Jung

Désirée Jung é uma artista brasileira, canadense, amante da beleza, e de tudo (e não tudo) que é da qualidade do feminino. Escritora e tradutora literária com especialização em Cinema na Vancouver Film School, mestrado em Fine Arts e Creative Writing, além de doutorado em Literatura Comparada. Publicou sua primeira obra, “Desejo Submerso”, em 2015, pela editora portuguesa Chiado.

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