Se você trabalha com Relações Institucionais e Governamentais (o tradicional lobby) e ainda acha que Inteligência Artificial é apenas um chatbot simpático que responde a perguntas ou escreve discursos, talvez seja hora de atualizar o software: o seu, o da sua cabeça.

A Inteligência Artificial já começou a mudar silenciosamente a forma como governos tomam decisões, empresas acompanham projetos de lei, entidades monitoram regulamentos e organizações identificam oportunidades ou riscos antes mesmo que eles apareçam nas manchetes. Em outras palavras, enquanto muita gente ainda discute se a IA vai substituir pessoas, ela já está poupando horas de trabalho repetitivo, planilhas intermináveis e madrugadas de leitura de diários oficiais.

A boa notícia é que ela não substitui o profissional de RIG. A má notícia é que poderá substituir aquele que insistir em ignorá-la.

Afinal, acompanhar milhares de proposições legislativas, analisar consultas públicas, monitorar discursos parlamentares, identificar tendências regulatórias, mapear stakeholders e produzir cenários estratégicos nunca foi exatamente uma tarefa simples. Era preciso muito café, muitas planilhas e uma boa dose de paciência. Agora, grande parte desse ecossistema pode ser analisada por algoritmos em poucos minutos.

A IA continua sendo exatamente aquilo que sempre deveria ser: uma ferramenta extraordinariamente poderosa para ampliar a inteligência humana, e não para substituí-la. Seu verdadeiro valor não está em “pensar” no lugar das pessoas, mas em analisar volumes gigantescos de informações, identificar padrões invisíveis, sugerir cenários e permitir que o profissional concentre seu tempo naquilo que realmente importa: estratégia, negociação, construção de relacionamentos, compreensão do complexo ambiente político e institucional e cafezinho… muito cafezinho.

Nos últimos anos, a evolução dos modelos de Inteligência Artificial, especialmente das IAs generativas e dos grandes modelos de linguagem (LLMs), transformou completamente esse panorama. O que antes exigia equipes inteiras de analistas agora pode ser realizado em minutos, permitindo monitoramento legislativo automatizado, análise regulatória, produção de relatórios, elaboração de cenários prospectivos e identificação de oportunidades estratégicas praticamente em tempo real.

É claro que nem tudo são flores digitais. A mesma tecnologia capaz de produzir excelentes análises também cria fake news sofisticadas, deepfakes quase perfeitos e campanhas automatizadas de desinformação. Algoritmos treinados com dados enviesados podem reproduzir preconceitos históricos. Além disso, a concentração dessas ferramentas em poucas corporações levanta discussões importantes sobre soberania digital, transparência e governança.

Por isso, a pergunta relevante deixou de ser “devemos usar Inteligência Artificial?” e passou a ser “como utilizá-la de forma ética, responsável e inteligente?”.

No universo das Relações Institucionais e Governamentais, essa resposta passa por um princípio simples: IA não substitui diálogo, confiança, credibilidade nem experiência política. Nenhum algoritmo consegue construir uma relação institucional sólida, interpretar nuances de uma negociação delicada ou conquistar a convicção de um tomador de decisão. Essas continuam sendo competências profundamente humanas.

A Inteligência Artificial faz o que as máquinas fazem melhor: processa dados em velocidade impressionante. O profissional de RIG continua encarregado daquilo que pessoas fazem melhor: compreender pessoas.

E, convenhamos, convencer um parlamentar, um regulador ou um dirigente público ainda parece um desafio muito maior do que persuadir qualquer algoritmo. Talvez seja justamente essa a maior lição da revolução tecnológica.
O futuro das Relações Institucionais e Governamentais não será dominado por máquinas. Será dominado por profissionais que saibam trabalhar ao lado delas.

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Paulo Foina

Mestre e doutor em Informática. Professor e pesquisador em aplicação de tecnologia emergentes em empresas e seus impactos na sociedade. Consultor e palestrante sobre a aplicação e impactos das novas tecnologia nas organizações e na sociedade.

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